13/04/2003
O primeiro a gente nunca esquece
Aloysio Balbi

Essa não foi a primeira vez que campista contou o pingar das últimas gotas das torneiras. E a questão ia muito além das torneiras transformando-se em conta-gotas. Ao contrário dos remédios, a situação não tinha bula, e a cidade viveu o seu primeiro grande trauma com o abastecimento d’água em junho de 1982. A empresa Paraíbuna de Mentais (MG) injetou nas veias do rio Paraíba do Sul, através do afluente Paraíbuna, doses cavalares de metais pesados — Cádmio, zinco e chumbo.

Como aconteceu agora com a Cataguazes Papéis, a irresponsabilidade deslizou para dentro do rio. Essa história deveria estar fresca na cabeça de muita gente, mas parece que a memória ainda meio desbotada até mesmo na geração que vivenciou aqueles cinco dias de pão sem água. A exemplo do que aconteceu agora, a primeira teve repercussão nacional e trouxe a Campos figuras de crachás poderosos, como o então governador Chagas Freitas.

Chagas Freitas foi o último governador do Rio que chegou ao cargo pulando as urnas, batendo continência para o regime militar, embora fosse civil, jornalista, dono do jornal O Dia. Em Campos, Chagas protagonizou uma cena emblemática para os que colecionam factóides, ao beber água e tomar banho no Paraíba, no bairro da Lapa.

As torneiras, na época abastecida pela Cedae, já jorravam com força, mas a população não tinha um pingo de confiança nela. Não bastava o governador dizer “bebam água”. Ele percebeu que teria que fazer. Cinco dias sem água, só com pão, o campista ganhara então o circo. Chagas Freitas, como todo bom político nunca havia dito “desta água não beberei”. Bebeu sob a mira dos aplausos esteve apenas ao alcance das mãos de afilhados políticos e funcionários da Cedae.

Provocado pelo médico Oswaldo Cardoso de Mello que disse — “eu represento a comunidade cientifica governador e isso não basta” —, Chagas descartou seu uniforme — o termo branco de linho —, pediu um calção e mergulhou no rio. O fotógrafo da Folha da Manhã na época, Wellington Peninha, foi feliz no ângulo que estava e conseguiu colocar um primeiro plano da foto, a corrente que ancorava um barco, exatamente na altura do pescoço de Chagas.
Enviado pelo Prof. Julio Cesar - Coordenador do Clube da Árvore
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