07/04/2003
Situação crítica no noroeste do estado

O rio Pomba ainda não deu sinal de recuperação. A água continua escura. O desastre ecológico provocou a morte de animais e centenas de peixes de várias espécies. Fotos mostram o reservatório de resíduos químicos da empresa mineira de papel depois do rompimento da represa. A população está sendo orientada a não usar a água nem para consumo animal, nem para irrigação.
Os 12 mil moradores de Aperibé tentam contornar os transtornos provocados pela contaminação do rio. Desde o início da semana, o abastecimento foi interrompido. As aulas nas escolas continuam suspensas.
A prefeitura e a Cedae reativaram uma rede de distribuição de água interligada ao município de Itaucara. A alternativa está beneficiando quem mora na área central do município.
“Religamos a rede e hoje estamos atendendo 50% da comunidade de Aperibé com água tratada de Itaucara, da Cedae”, explica um técnico.
Os moradores dos bairros mais altos encontram muitas dificuldades para conseguir água. A maioria não tem postos artesianos em casa. O alívio chega através de carros-pipa. Três caminhões percorrem a cidade. A água vem de outros municípios.
“Tem hora que não tem nem um pinguinho de água para tomar banho, não sei o que eu vou fazer. Não tem!”, chora uma senhora.

Apurando responsabilidades

A governadora Rosinha Matheus sobrevoou hoje a área atingida e está no local onde aconteceu o vazamento, em Minas Gerais. Ela anunciou que pretende entrar com uma ação civil pública contra a empresa Cataguazes de Papel que provocou a tragédia.
A polícia de Minas está investigando o que causou o acidente com a barragem, que liberou a carga tóxica para o rio Pomba. A investigação é importante para tentar prevenir outros acidentes especialmente no momento em que autoridades do estado do Rio garantem que já há sinais de que uma outra barreira também estaria em mau estado, prestes a se romper.
Hoje começaram a ser feitas novas análises de amostras dos resíduos que vazaram. O centro tecnológico de Minas recebeu doze novas amostras de água de dois rios e de resíduos para análises.
Os técnicos vão avaliar ainda a composição química da segunda barragem da empresa que, de acordo com o Ibama, está na capacidade máxima de armazenamento. Pelas análises será possível saber se a contaminação da água está diminuindo. Os resultados de parte das amostras saem no fim da tarde.
Hoje de manhã, engenheiros do Instituto de Criminalística de MG foram para Cataguazes, cidade onde houve o acidente. Eles são especialistas em meio ambiente e em estabilidade de barragens, e farão coletas de amostras de água e de solo para saber porquê houve o vazamento e quais os reais danos ambientais. O laudo será usado pela polícia para apurar responsabilidades.

Produtos de regiões afetadas são analisados
Nesta madrugada, onze caminhões chegaram à Ceasa em Irajá, vindos de municípios do norte e noroeste do estado. Os motoristas foram parados pela fiscalização. Os técnicos recolheram amostras de hortaliças, legumes, verduras e frutas.
Nas sete cidades afetadas pela poluição há plantações, principalmente, de tomate, jiló, pimentão, quiabo e aipim. A produção representa 10% do que é consumido no estado. Para a direção da Ceasa o desastre ecológico não vai provocar desabastecimento.
“A população pode ficar tranqüila, não há preocupação com desabastecimento. E não há motivo para especulação, nem aumento de preços”, afirma Mauro Pimentel, diretor operacional da Ceasa.
Os comerciantes da região atingida, que comercializam produtos na Ceasa, dizem que não foram prejudicados com a contaminação dos rios Pomba e Paraíba do suL.
“Nas lavouras, graças a Deus, não estava sendo usada a água do rio. A gente usa água de riacho, então não afetou as lavouras, por enquanto”, garante Luiz Carlos Martins, produtor rural.
As amostras colhidas na Ceasa foram trazidas para um laboratório contratado pela Secretaria Estadual de Agricultura. Ali os produtos passam por análise para verificar se há algum tipo de contaminação.
Os técnicos trituram os alimentos para fazem testes químicos. Amostras são colocadas em um equipamento que separa os poluentes. O resultado do exame sai em 24 horas.
O monitoramento será feito até que a água dos rios Pomba e Paraíba do Sul esteja novamente própria para consumo.
No laboratório também está sendo feito o exame da água do rio Pomba. Duas amostras foram analisadas: a primeira colhida no Rio, uma outra que recebeu o tratamento da Cedae.
Na primeira foi encontrado um produto tóxico que causa queimaduras e danos no sistema nervoso central. Já na água que recebeu o tratamento da Cedae o poluente não foi identificado. Mas os técnicos alertam: há necessidade de novos testes.
“As analises não são conclusivas, principalmente, por se tratar de uma fábrica de papel. São necessárias outras análises ao longo do rio, e amostras de peixe, porque pode-se encontrar compostos extremamente cancerígenos”, justifica Gabriela Carvalhães, diretora do laboratório