03/04/2003
Sofrimento e Vergonha


Os números da tragédia que matou o Rio Pomba e envenenou mortalmente o Paraíba são estarrecedores. O pouco caso das autoridades, também. Até ontem, nem a ministra do Meio-Ambiente, Marina Silva, nem os governadores Aécio Neves e Rosinha Matheus tinham comparecido às áreas atingidas. Podem não ter percebido ainda que esse é o pior desastre ecológico já acontecido no Brasil. Mas a população dos municípios atingidos já percebeu.
Impossível entender ou aceitar que os sinais do desastre que vinha sendo preparado há anos não tenham sido detectados a tempo pela direção da fábrica de celulose, em Cataguases, de onde vazou o lixo químico. Não se acumula 1,5 bilhão de litros de produtos tóxicos da noite para o dia nem se descobre falha num sistema de segurança capaz de provocar tragédia em tais dimensões apenas quando o desastre já aconteceu. Houve crime ambiental por incúria dos dirigentes da fábrica, e omissão igualmente criminosa por parte das autoridades incumbidas de evitar que acidentes dessa natureza possam ocorrer.

O veneno descarregado pela fábrica no leito do Rio Pomba era em quantidade suficiente para encher mais de mil piscinas olímpicas. Formou, logo no primeiro dia, mancha de 90 quilômetros, que avança devastadoramente quase dois quilômetros por hora e pouco menos de 50 quilômetros por dia, deixando em seu rastro a morte de centenas de animais, a contaminação de terras produtivas e a intoxicação das populações ribeirinhas. Só no Estado do Rio mais de 500 mil pessoas ficaram sem água desde o segundo dia do desastre.

O lixo que matou o Rio Pomba e está destruindo o Rio Paraíba do Sul tem altíssimo poder de intoxicação. É mistura letal de enxofre e sulfeto de sódio, produtos usados para branquear papel. Pode conter ainda resíduos de metais pesados, como o mercúrio, cuja presença é suficiente para arrasar com a qualidade da água em que seja dissolvido. Segundo técnicos da Agência Nacional de Águas, vão ser necessários pelo menos 10 anos para que a vida volte às águas contaminadas.
A devastação pode ser vista de satélite. Nos gabinetes oficiais só foi vista quando restava muito pouco a fazer além das lamentações de praxe e das providências administrativas: a fábrica, que funcionava sem licença há oito anos, foi fechada. Além disso, pode ser multada em até R$ 50 milhões, e seus responsáveis podem ser criminalmente processados, ficando sujeitos a pena de cinco anos de prisão. Quanto aos rios Pomba e Paraíba do Sul, tiveram aumentada a vazão de suas águas para diluir os produtos e acelerar sua chegada ao mar.
Discutir responsabilidades é importante. Mas é secundário. A população gostaria mesmo é que os governadores, a ministra do Meio-Ambiente e o presidente Lula abrissem suas agendas para uma visita ao lugar da tragédia. Em casos como esse, passado o rumor, o que sobra é pouco mais que sofrimento, solidariedade e vergonha.