03/04/2003
Contaminação do rio Pomba pode ser pior desastre ecológico
do Brasil
Aproximadamente 1 bilhão e 200 milhões
de litros de produtos tóxicos atingiram o Rio Pomba no vazamento
de rejeitos químicos da Cataguazes Papéis, em Minas Gerais,
no que pode ser o maior desastre ambiental que já aconteceu no
Brasil. Entre os componentes mais perigosos está a lixívia,
composto por soda cáustica. A contaminação chegou
até o Rio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. A empresa
responsável pelo desastre ecológico, que funcionava irregularmente,
já foi multada.
O consumo ou contato com a água nas cidades onde o sistema de
abastecimento depende do Rio Pomba pode causar danos à saúde.
O abastecimento de água foi suspenso em sete municípios
do noroeste fluminense. A captação foi paralisada às
11h30 e a previsão para o retorno do fornecimento vai depender
de melhorias da qualidade da água.
Ao longo do Paraíba já se constata mortandade de peixes.
O medo das autoridades, a partir de agora, é com o consumo desses
peixes por parte da população ribeirinha e também
o contato com a água. A contaminação pode provocar
náuseas, vômitos, anemia e perda de consciência.
As empresas que provocaram o desastre ecológico no rio Pomba
foram multadas em R$ 50 milhões pelo Ibama.
Mancha deixa Campos em alerta
Contaminação no Rio Paraíba deve chegar hoje à
cidade e prefeitura decide pela manhã se corta a água
dos 500 mil moradores.
Campos montou um esquema especial para enfrentar a partir de hoje os
problemas causados pela contaminação dos rios Pomba e
Paraíba do Sul, que já atingiram cinco cidades e um distrito.
A prefeitura e a Águas do Paraíba, que administra a distribuição
na cidade, decidem hoje de manhã se interrompem o abastecimento.
Desde ontem à noite a cidade está em estado de alerta,
analisando a água a cada meia hora e pronta para desligar o sistema
de fornecimento em caso de indício de contaminação.
De acordo com a prefeitura, se o sistema de distribuição
for desligado pela manhã, a água armazenada é suficiente
para atender à população normalmente até
amanhã à tarde.
O prefeito Arnaldo Vianna divulgou nota com 10 tópicos, recomendando
economia de água e suspensão do consumo de peixes e banhos
no rio. O Procon intensificou a fiscalização das distribuidoras
de água mineral para que não haja abuso nos preços.
Na região, o consumo de água mineral aumentou em 150%.
A contaminação foi causada pelo vazamento de produtos
químicos da Fábrica Cataguazes de Papel, em Cataguases
(MG). Aproximadamente 1,2 milhões de metros cúbicos de
enxofre, soda cáustica, liquinina, sulfeto de sódio, hipoclorito
de cálcio e antraquinona armazenados em tanques, vazaram para
o Rio Pomba. O rio abastece 39 cidades de Minas, além de Miracema,
Santo Antônio de Pádua, Aperibé, Camboci e o distrito
de Portela (em Itaocara), no Estado do Rio.
Ontem, a mancha escura e com espuma chegou ao Rio Paraíba, e
o abastecimento em São Fidélis foi interrompido. Em São
João da Barra, que fica depois de Campos de acordo com o curso
do rio, o abastecimento foi cortado pela Cedae na noite de ontem. Embora
a mancha não tenha atingido a cidade, a medida é uma precaução.
No total, 136 mil pessoas estão sem água no Noroeste e
no Norte do estado. Se Campos tiver o fornecimento fechado, o número
passará de 600 mil. O desastre ambiental matou peixes e destruiu
a vegetação. Os produtos são tóxicos e representam
risco para o homem.
Cadastramento para facilitar ações na Justiça
A Secretaria Estadual de Agricultura está fazendo cadastramento
de todos os produtores rurais no Noroeste que usam o Rio Pomba e o Rio
Paraíba do Sul para irrigação e para a criação
de gado. O secretário Christino Áureo quer que a população
agrícola esteja preparada para informar sobre perdas causadas
pelo acidente para possíveis ações judiciais contra
a Fábrica Cataguazes.
Gado retirado da área ribeirinha
De Pádua a Campos há 20 mil produtores rurais, que usam
116 mil hectares. O principal produto plantado é o tomate, mas
as lavouras são irrigadas por afluentes que não foram
atingidos.
A produção leiteira da região é de 186 mil
litros diários. Produtores estão preocupados com os possíveis
prejuízos. As cooperativas estão usando poços artesianos
e caminhões-pipa para continuar funcionando. Para evitar que
o rebanho beba água contaminada, produtores retiraram os animais
das áreas ribeirinhas e levaram para pastos mais altos, com açudes.
Em Santo Antônio de Pádua, a Cooperativa Agropecuária
conseguiu ontem manter a produção de 25 mil litros diários
de leite coletando água da Cedae em Itaocara, a 22 quilômetros.
“Pelo que levantamos até agora, os açudes para o
gado só têm água até quinta-feira”,
disse a presidente da Cooperativa, Valéria Kezen Leite.
Na zona rural de Itaocara, a preocupação maior é
com as plantações de hortigranjeiros, especialmente tomate.
De acordo com o presidente da Cooperativa Agropecuária da cidade,
Paulo César Alves, a irrigação foi suspensa. “Jiló,
quiabo e pimentão agüentam até cinco dias sem água.
Já no caso do tomate, sem irrigação a perda pode
ser total. A sorte é que a maior parte das lavouras não
usa o Rio Pomba para a irrigação”. (Colaborou Simone
Noronha)
Fábrica terá que isolar Rio Pomba
A Agência Nacional de Águas (ANA) determinou ontem que
a Fábrica Cataguazes de Papel, em Cataguases (MG), isole o Rio
Pomba de seu afluente, o Riacho Cágado, que fica em Minas Gerais
e está funcionando como um canal entre o local de vazamento dos
produtos tóxicos e o rio.
O objetivo é impedir que os efluentes químicos continuem
caindo no Rio Pomba e no Rio Paraíba do Sul e impedindo o fornecimento
de água para cidades do Norte e Noroeste Fluminense. “Depois
que o riacho for fechado, os produtos tóxicos devem ser bombeados
de volta para o reservatório da empresa. A partir daí,
a fábrica deverá eliminar os resíduos”, disse
o presidente da ANA, Gerson Kelman, que passou o dia de ontem reunido
com diretores da fábrica e o vice-governador e secretário
de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, Luiz Paulo Conde.
Pescadores perdem fonte de renda.
O pescador Guiomar Azevedo da Silva, 31 anos, em Cambuci, está
desolado com o acidente. “O Rio Paraíba é o meu
sustento. É dele que consigo manter minha família”,
disse Guiomar, que é casado e tem três filhos. Ele faz
parte da Colônia de Pescadores de São Fidélis e
espera conseguir um meio de sobreviver durante o tempo que a poluição
afastar o pescado.
Em São Fidélis, os pescadores enfrentam o mesmo problema.
“Ficamos quatro meses no defeso. A autorização para
a pesca saiu no dia 15 de março, e agora acontece essa tragédia.
Desse jeito a vida fica muito difícil”, reclama o pescador
Aílton da Silva.
Joacir Ferreira Gonçalves, outro pescador, contou que os projetos
de repovoamento de lagosta, que estavam sendo desenvolvidos nos dois
rios, também serão prejudicados.
Produto deve ser diluído em 10 dias
Segundo o ambientalista David Zee, a situação está
fora do controle. “Nada pode ser feito, a não ser torcer
que chova bastante para que o produto possa ser mais rapidamente dissolvido.
Acredito que em 10 dias o produto já tenha sido diluído
e absorvido pela natureza”, calcula. Ele disse que é preciso
monitorar as áreas mais habitadas. “A população
corre grande risco de contaminação”, afirma.
A Agência Nacional de Águas autorizou ontem que as represas
de Nova Maurício e Ituerê, em Minas Gerais, aumentem a
vazão de água nos rios Novo e Pomba,respectivamente. A
represa de Funil, no Estado do Rio, também vai aumentar a vazão
do Rio Paraíba do Sul. “O objetivo é aumentar o
volume e a velocidade da água para que os produtos tóxicos
diluam mais rapidamente”, disse o vice-governador.