03/04/2003
RIO - A governadora Rosinha Garotinho criticou há pouco, em Santo Antônio de Pádua, no Noroeste Fluminense, o Ibama por não obrigar o governo mineiro a conter o vazamento dos resíduos químicos de uma fábrica de papel de Cataguases (MG) e por não cobrar as obras em outro reservatório da mesma empresa que também ameaça se romper por conta de uma infiltração.

Santo Antônio de Pádua foi um dos municípios mais atingidos pelo desastre ecológico nas Regiões Norte e Noroeste. A governadora lamentou ainda que o governo federal não tenha se pronunciado oficialmente a respeito do acidente.

Neste momento, Rosinha está reunida com os prefeitos de Santo Antônio de Pádua, Luiz Fernando Padilha, de Itaocara, Manuel Faria, de Campos, Arnaldo Vianna, de São Fidélis, Davi Loureiro, de Lage de Muriaé, José Eliezer, de Aperibé, Alfredo Gomes Telles, de Miracema, Gutemberg Damasceno, de Bom Jesus de Itabapoana, Miguel Motta, e de Natividade, Luiz Carlos Machado, e com os secretários estaduais de Meio Ambiente, o vice-governador Luiz Paulo Conde, e de Agricultura, Christino Áureo, no Hotel das Águas, em Pádua.

Antes de chegar à cidade e percorrer a orla do Rio Pomba em carro da Defesa Civil municipal, Rosinha sobrevoou de helicóptero a região atingida pelo vazamento e verificou que próximo ao reservatório que se rompeu ainda existem muito resíduos tóxicos e que, se chover, podem descer para o Riacho do Cágado, que deságua no Rio Pomba, agravando ainda mais a situação nos municípios fluminenses.


Um rastro de destruição
Cidades amargam prejuízos com paralisação de atividades que dependem dos rios Pomba e Paraíba do Sul, que estão contaminados
A mancha de contaminação não acabou de passar, mas as oito cidades afetadas no Estado do Rio de Janeiro já começam a contar os prejuízos. A pesca, a agricultura, o turismo, a pecuária e as áreas industrial e comercial estão comprometidas em São João da Barra, Campos, São Fidélis, Cambuci, Aperibé, Santo Antônio de Pádua, Miracema e Itaocara, em conseqüência do vazamento de produtos químicos nos rios Pomba e Paraíba do Sul.
A mancha começa a chegar na manhã de hoje ao mar, no distrito de Atafona, em São João da Barra, na foz do Paraíba do Sul. Apesar de a Feema descartar a possibilidade de os produtos tóxicos contaminarem o mar, a Defesa Civil da cidade proibiu o banho no litoral. A cidade recebe em média 100 mil turistas nos feriados prolongados, como o da Semana Santa.

A pesca foi a atividade mais prejudicada em todas as cidades. Sem ter como trabalhar, os pescadores estão pleiteando ajuda de custo em torno de um salário mínimo mensal, para sustentar a família. Só em São João da Barra, 400 pescadores de água doce pararam, e os outros 2,5 mil que pescam no mar não sabem se poderão trabalhar.
Eles abastecem os mercados da região com cinco mil toneladas de pescado por mês. O presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril da cidade, Júlio Macedo, afirmou que 450 indústrias, lojas e empresas de serviço legalizadas da cidade começam a fechar hoje.

O prefeito de Pádua, Luiz Fernando Padilha, decretou estado de calamidade pública. Na cidade, seis hotéis estão fechados, e as plantações de tomate e jiló começam a secar. A irrigação era feita com água do Rio Pomba.
Em Campos, onde o abastecimento foi interrompido ontem às 11h30, a previsão é que o estoque de água acabe na tarde de hoje, mas a Usina Santa Cruz já paralisou a produção de açúcar. “Sem água limpa não podemos trabalhar”, disse o diretor superintendente Jean Gerard Lesur.
O empresário José Luiz Barreto Machado, 50 anos, mudou o rebanho de lugar para evitar que o gado beba água contaminada. “Em sete anos nunca vi um problema tão grave. Quando poderei trazer meu rebanho de volta ou me refrescar no rio?”. Em sete cidades, 58.600 alunos estão sem aula.

Ainda há risco de novos vazamentos
A governadora Rosinha Garotinho afirmou que pedirá ajuda à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, por causa do desastre ecológico. Hoje pela manhã, a governadora sobrevoará os rios atingidos e vai a Campos ver de perto a situação.
O ministro das Cidades, Olívio Dutra, classificou a poluição dos rios Pomba e Paraíba do Sul como gravíssima. “É caso de cadeia, porque a empresa não é primária”, disse ele.
O vice-governador e secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, alertou que ainda há risco de novo vazamento atingir o Rio Pomba, já que parte dos produtos ficou represada num afluente. Para evitar nova contaminação, duas providências poderão ser tomadas: reconstruir o reservatório e bombear os dejetos ou retirar os produtos tóxicos tratando a água com carvão e feltro. Acima do reservatório que arrebentou existe outro, com 700 milhões de litros de rejeitos.
No Rio Paraíba do Sul, o desastre acabou com um trabalho de 12 anos de repoavamento do leito com espécies de peixes, alguns em extinção. Técnicos da Feema estimam que os danos serão sentidos por cinco anos, comprometendo o desenvolvimento da fauna e da flora aquática.

Irmã de Garotinho usará água de poço
A irmã do ex-governador Anthony Garotinho, Kathleen Matheus de Oliveira Santos, vai recorrer a poço artesiano e a água mineral para abastecer sua casa, no bairro Jardim Carioca, em Campos. “É o que todos estão fazendo. A água do poço não tem qualidade para ser bebida ou cozinhar, mas serve para a limpeza. Usaremos água mineral na cozinha”, disse.
Vizinho da família de Garotinho no bairro da Lapa, o casal Ailton Pacheco, 74 anos, e Jacila Oliveira Pacheco, 70, encheu recipientes plásticos e duas caixas d’água. “Se a interrupção passar de cinco dias, será um sufoco”, disse ele. Pescador desde 1983, Luiz Freitas, 55 anos, passou a tarde observando o Paraíba do Sul. “Quando será que vou pescar aqui de novo?”