22/04/2003
Perigo do Paraíba já não assusta

Por necessidade ou por não respeitar os alertas de perigo, muita gente em Campos tem utilizado a água direta do rio Paraíba sem nenhum tratamento

Mesmo com a proibição do uso da água in natura do rio Paraíba do Sul, devido ainda ao acindente ecológico registrado no início do mês, algumas pessoas já estão voltando às suas rotinas, contrariando todos os alertas, ou por falta de opção, ou mesmo por não acreditarem que o rio esteja oferecendo algum tipo de perigo para a saúde.

A família de Luiz Carlos Santos, 52 anos, desafia o perigo diariamente como se nada estivesse acontecendo Segundo contou, ele, a esposa, Maria José da Silva, 25 anos e o filho Steven dos Santos, dois anos, precisam do rio para suas necessidades básicas de higiene, fazer comida e beber água. O problema com a contaminação do Paraíba parece que não os assusta. Luiz disse que o perigo maior já passou. “A água já está limpa agora, não assusta mais”, disse.

A família está viajando desde o ano passado, saindo de Atalaia (Alagoas), com a intenção de chegar em São Paulo ainda este ano. Luiz, que é pedreiro, disse que saiu de sua terra por falta de opção de emprego e espera vida melhor na cidade grande. “Estamos viajando a pé ou de carona. Não temos lugar para ficar e não temos outra opção a não ser usar a água do rio ”.

No Parque São Jorge vários pescadores também desprezaram os riscos e voltaram a atividade normalmente. Segundo um deles, que estava em uma canoa ontem no rio, o resultado não estava sendo muito satisfatório. Fábio Ribeiro Ramos, 22 anos, junto com mais dois amigos, estavam pescando com tarafa, ontem pela manhã.

Ele contou que o rio já está dando sinais de recuperação, voltando a aparecer algumas espécies. “No acidente morreu muito peixe, mas os que estavam no meio do rio e nas tocas conseguiram sobreviver,disse” Segundo Fábio já estão sendo encontradas no rio Paraíba, tilápias, acarás, traíras e sairus . Esses peixes, afirmou , estão sendo consumidos normalmente sem que tenham provocado algum tipo de problema para a saúde. Moradores do Parque São Jorge denunciaram que alguns bares que servem peixe preparados na hora, voltaram a funcionar com sua clientela quase normalizada servindo peixes pescados do rio Paraíba.

Campos quer indenização por acidente ecológico
Procuradoria Geral prepara uma ação cobrando da empresa Guataguazes Papel o ressarcimento dos prejuízos ao município

A Procuradoria Geral do município de Campos vai acionar a Justiça para cobrar indenização da indústria Gataguazes Papel pelos prejuízos provocados aos campistas com a poluição do rio Paraíba do Sul. Os prejuízos já começaram a ser avaliados pela Procuradoria com a participação de órgãos estaduais e da sociedade civil organizada.

Na semana passada, o procurador geral do município, Alex Campos, o sub-procurador Luiz Emílio Naves e a procuradoria L Simone de Sá Portela se reuniram na Secretaria de Planejamento com secretários municipais e representantes da sociedade civil organizada e da concessionária Águas do Paraíba para avaliar os prejuízos.

De acordo com a Procuradoria, está sendo feito um estudo jurídico para aproximadamente duas semanas impetrar com uma ação civil pública contra a empresa mineira causadora da contaminação, objetivando ressarcir os danos causados ao povo,”já que os direitos difusos foram violados”. “Está sendo estudada a hi-pótese de entrar também na Justiça contra o Estado de Minas Gerais”, completa a procuradora Simone.

Todos os órgãos presentes na reunião apresen-taram os seus prejuízos, cuja avaliação será realizada pela defesa civil do município, sendo enviado em seguida , ao órgão estadual e posteriormente ao nacional. Um cópia vai ficar na procuradoria geral do município. Ainda sem ter calculada seus prejuízos , mas ressaltando a participação da Secretaria de Meio Ambiente e Defesa civil para que o trabalho surtisse resultados, o gerente de operações da Águas do Paraíba, Jocélio Azevedo, afirmou que a empresa já iniciou os estudos para uma captação alternativa.

“O estudo está sendo feito por uma empresa de Curitiba. Estão em Campos geólogos que realizam as sondagens no leito do rio e nas proximidades da margem. Acreditamos que em 30 dias já teremos este estudo pronto para apre-sentar a prefeitura“, disse.

Preocupado em municiar a prefeitura e quantificar os prejuízos para que seja apresentada uma ação sólida, o sub-procurador destacou que as anotações feitas durante a reunião vão servir de respaldo para a ação afim de que o juiz possa identificar de forma clara e objetivo o que o município tem de crédito.

“Estamos falando de direitos difusos,que é o direito da coletividade indeterminada.Os representantes legais da empresa sabiam dos riscos que ela representavam e houve culpa por parte dela, tendo em vista que ela foi causadora de um grande prejuízo em 1995, sendo uma época proibida de funcionar e , mesmo assim, continuou trabalhando sem licença “, informou a procuradora Simone de Sá Portela.

Água é liberada para o consumo geral em Itaocara
A distribuição da água para consumo humano na localidade de Portela, no distrito de Itaocara, no Noroeste Fluminense (atingida pelo acidente ambiental provocado pelo vazamento de 1,2 bilhão de litros de produtos químicos provenientes da Indústria Cataguazes de Papel, em Minas Gerais) está liberada desde domingo, pela Secretaria de Saúde do Estado.

Segundo o secretário de Saúde, Gilson Cantarino, a decisão foi tomada com base nos resultados dos últimos laudos da análise laboratorial referentes às amostras de água tratada coletadas pela Cedae. Os laudos mostraram que o material coletado estava dentro dos padrões de potabilidade estabelecidos pela Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde.

O secretário determinou também que a Cedae realize diariamente, durante sete dias, a coleta de água tratada no reservatório de distribuição para controle do produto. Ele já havia liberado, sexta-feira, a distribuição para consumo humano no município de São João da Barra, na Região Norte. Antes, dia 11, Cantarino liberara em Campos, São Fidelis e Aperibé.

Os primeiros municípios que tiveram o consumo liberado após o acidente foram Campos, São Fidélis e Aperibé, após 10 dias de interrupção. Em São João da Barra, que teve o consumo liberado no final de semana, a prefeitura e Cedae haviam feito uma sistema alternativo através da poço artesiano.